Reconstruindo o Crédito: Estratégias Pós-Crise

Reconstruindo o Crédito: Estratégias Pós-Crise

O Brasil chega a 2026 com um panorama econômico desafiador. Projeções do Relatório Focus apontam inflação em 4,06%, crescimento do PIB em 1,80% e taxa Selic encerrando o ano em 12,25%. Enquanto isso, o câmbio deve rondar R$ 5,50, refletindo a volatilidade global e as incertezas fiscais.

Em meio a essa conjuntura, o mercado enfrenta um recorde de falências e recuperações judiciais, pressão no crédito e uma rigidez monetária que impacta diretamente empresas e consumidores. Para atravessar esse período, é fundamental adotar estratégias robustas de prevenção, negociação e recuperação.

Cenário Econômico para 2026

As políticas fiscais expansionistas, aliadas a um controle inflacionário vigoroso, mantêm juros elevados e pressão no crédito. O crédito ampliado cresceu 11,2% nos últimos 12 meses, mas a seletividade e a concentração do mercado aumentaram, deixando acesso restrito a pequenos negócios.

Com inadimplência elevada e recorde de falências, torna-se imperativo repensar processos internos e estruturas de garantia. A combinação de alta taxa Selic e dificuldades de financiamento exige soluções que equilibrem segurança jurídica e agilidade operacional.

Lições das Crises Passadas

Para prevenir choques futuros, é crucial aprender com as crises anteriores. Elas revelam padrões de aversão ao risco, escassez de liquidez e a importância de políticas públicas de suporte.

  • Crise de 2008: retração econômica e escassez de crédito criaram gargalos de financiamento. A resposta governamental incluiu manutenção de linhas de crédito às empresas.
  • Pandemia de COVID-19 (2020-2023): geração de desemprego e inadimplência, com leve queda no volume de concessões apenas em 2020.
  • Colapso de bancos menores (2023): Master e Will acionaram cobertura recorde do FGC, expondo garantias insuficientes e análise de risco superficial.

Estratégias de Prevenção e Estruturação de Crédito

O modelo tradicional de cobrança reativa já não basta. É necessário prever, estruturar e monitorar operações desde a concessão. Empresas de crédito digital que usam garantias cresceram para 77%, mostrando vantagem competitiva.

Estabelecer operações colateralizadas para resiliência envolve:

• Definição clara de limites, prazos e gatilhos de cobrança;
• Adoção de garantias reais e recebíveis com cálculo matemático rigoroso;
• Cláusulas contratuais para execução rápida e documentação padronizada.

Com essa base, a empresa reduz riscos e aumenta a previsibilidade de recuperação financeira.

Ferramentas Modernas e Desjudicialização

Ao integrar inteligência artificial e canais múltiplos de comunicação, é possível antecipar sinais de atraso e promover renegociações mais eficazes. Sistemas omnichannel segmentam o público e automatizam lembretes, propostas e notificações.

O monitoramento de sinais de inadimplência—como quebras de contratos sociais, protestos e queda de faturamento—aciona gatilhos que migram automaticamente de uma cobrança amigável para a executiva, garantindo agilidade.

Por fim, o Provimento CNJ 196/25 permite a trilha extrajudicial em RTDs para busca e apreensão de bens fiduciários móveis, reduzindo custos e tempo em comparação ao rito judicial tradicional.

Preparação Empresarial e Medidas de Apoio

Empresas devem redobrar esforços para reduzir custos via automatização e ajustar estruturas operacionais aos cenários de juros elevados. Manter a documentação organizada e garantias atualizadas é essencial para enfrentar processos de recuperação judicial com agilidade.

  • Banco Central/CMN: linha de R$ 5 bilhões para MPMEs, com carência de 24 meses e prazo de 60 meses, limite de R$ 70 milhões.
  • Banco do Brasil: duplicou o limite sem garantias reais de R$ 50 mil para R$ 100 mil e liberou R$ 4,4 bilhões para o agronegócio.

Conclusão

À medida que o país navega por um ambiente de crédito restrito e taxas elevadas, a preparação para recuperações judiciais e a capacidade de agir preventivamente emergem como diferenciais competitivos. Somente com gestão de risco, inteligência de dados e processos bem estruturados será possível garantir resiliência e sustentabilidade financeira.

O momento exige união entre setor público e privado, inovação tecnológica e compromisso com a solidez jurídica. Dessa forma, as instituições estarão prontas para reconstruir o crédito e impulsionar um novo ciclo de crescimento.

Yago Dias

Sobre o Autor: Yago Dias

Yago Dias contribui com o LucroMais criando conteúdos sobre hábitos financeiros, disciplina econômica e caminhos práticos para ampliar o controle financeiro no dia a dia.