A terceirização se consolidou como estratégia essencial para muitas empresas que buscam flexibilidade nas relações trabalhistas e especialização de serviços. No entanto, incorporar essa prática sem um programa de compliance robusto pode expor a contratante a riscos legais e reputacionais consideráveis.
Este artigo oferece uma visão aprofundada sobre a evolução da legislação, os principais conceitos de terceirização e compliance, além de apresentar recomendações práticas para mitigar riscos ao trabalhar com parceiros.
Contexto Histórico e Legislativo
Até 2017, a Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho vedava a terceirização das atividades-fim, autorizando apenas a contratação de serviços ligados às atividades-meio. Com a publicação da Lei 13.429/2017 e Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017), houve flexibilização para permitir que empresas terceirizem funções essenciais à cadeia produtiva.
Essas mudanças abriram espaço para estratégias de redução de custos e acesso a mão de obra especializada, mas também reforçaram a necessidade de canais de fiscalização e governança para evitar irregularidades.
Definições e Conceitos Fundamentais
Terceirização é o processo que permite a contratação de serviços especializados sem vínculo direto de emprego, transferindo obrigações trabalhistas a um prestador de serviços. Embora pareça uma solução simples para empresas, a adequação legal exige atenção a detalhes contratuais e fiscais.
Compliance representa o conjunto de normas, procedimentos e controles internos estabelecidos pelas organizações para garantir o cumprimento de leis, regulamentos e políticas internas. No contexto da terceirização, o compliance deve abranger também a cadeia de fornecimento, evitando fraudes e práticas ilícitas.
Compliance Trabalhista é a vertente focada em assegurar que todos os colaboradores — diretos ou indiretos — tenham seus direitos respeitados, proporcionando proteção integral aos trabalhadores terceirizados e reduzindo a exposição da contratante.
Vantagens da Terceirização
Empresas de diversos segmentos adotam a terceirização em busca de maior competitividade. Entre os principais benefícios, destacam-se:
- Redução de custos operacionais e encargos trabalhistas
- Acesso a expertise especializada em nichos técnicos
- Maior agilidade na adequação a demandas variáveis
- Possibilidade de focar na atividade-fim da organização
Quando bem planejada e acompanhada por um programa de compliance, a terceirização potencializa resultados sem abrir mão da segurança jurídica.
Riscos e Responsabilidades Legais
Mesmo sob o amparo das leis mais recentes, o tomador de serviços pode responder de forma subsidiária ou solidária pelas obrigações trabalhistas da prestadora. O Supremo Tribunal Federal consolidou o entendimento de que a responsabilidade subsidiária e solidária configuradas exigem comprovação de negligência ou fraude na fiscalização do contrato.
Em caso de reconhecimento de vínculo empregatício irregular, a contratante pode ser obrigada a arcar com valores de:
Além dos custos diretos, a empresa pode sofrer dano à reputação e perda de licenças se processos judiciais se acumularem. Empresas sem programas de compliance adequados ficam vulneráveis a multas, interdições e até proibição de funcionamento.
Desafios do Compliance em Contexto de Terceirização
Garantir a observância de padrões éticos e legais por parte de terceiros é uma das tarefas mais complexas do compliance. A contratante perde o controle direto sobre a gestão de recursos humanos, o que pode gerar lacunas na supervisão de:
- Condições de trabalho e segurança ocupacional
- Cumprimento de direitos trabalhistas básicos
- Aplicação de códigos de conduta e valores corporativos
Para reduzir esse distanciamento, é fundamental implementar mecanismos que assegurem auditorias periódicas e relatórios documentados sobre as práticas da prestadora.
Melhores Práticas e Recomendações
Adotar um programa de compliance eficaz requer etapas bem definidas, desde o planejamento até o monitoramento contínuo.
- Due Diligence rigorosa: verificar histórico fiscal, trabalhista e judicial do parceiro antes de assinar o contrato.
- Cláusulas contratuais claras: incluir obrigações de cumprimento de normas, garantias financeiras e direito de auditoria.
- Supervisão constante: realizar auditorias internas e externas periódicas, com registros documentados por pelo menos cinco anos.
- Treinamento contínuo: realizar workshops e atualizações para equipes da contratante e colaboradores terceirizados.
Implementar ferramentas de gestão de risco e automação de processos facilita o acompanhamento de indicadores e a detecção de não conformidades. Além disso, integrar políticas de anticorrupção e LGPD ao programa de compliance amplia a cobertura de proteção contra eventuais falhas.
Em última análise, a terceirização e o compliance devem caminhar lado a lado, criando um ambiente de trabalho respeitoso e legalmente seguro. Só assim será possível aproveitar plenamente as vantagens da contratação de parceiros especializados, sem comprometer a reputação e a saúde financeira da empresa.
Referências
- https://sindhosba.org.br/o-impacto-da-terceirizacao-no-compliance/
- https://michelinadvogados.com.br/blog/o-impacto-da-terceirizacao-e-o-compliance-trabalhista/
- https://nasajon.com.br/terceirizacao-e-compliance-trabalhista/
- https://direitoempresarial.com.br/o-papel-estrategico-do-compliance-officer-terceirizado-nas-empresas
- https://lec.com.br/terceirizacoes-em-xeque-responsabilidades-e-riscos-demandam-cuidado/
- https://www.executiva.com.br/www-executiva-com-br-blog-gestao-de-terceiros-riscos-e-compliance/
- https://www.fecomercio.com.br/noticia/terceirizacao-e-pejotizacao-boas-praticas-para-reduzir-riscos-e-garantir-seguranca-juridica
- https://portelasj.com/artigos-e-m%C3%ADdias-psj/terceiriza%C3%A7%C3%A3o-segura-boas-pr%C3%A1ticas-para-minimizar-riscos-e-proteger-sua-empresa
- https://www.machadomeyer.com.br/pt/inteligencia-juridica/publicacoes-ij/inteligencia-juridica-trabalhista/terceirizacao-a-importancia-da-fiscalizacao-e-gestao-de-risco







